quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Subestimadores

Vivia sozinha a dois anos desde que seus pais morreram, casa grande e nove gatos que se espalhavam confortavelmente pela casa. Era uma madrugada de sexta-feira dia de folga do trabalho, levantou depois de um pesadelo o qual não se lembrava do que era, mas sabia que foi um sonho ruim pois estava tomada por um medo interno e depois daquilo não conseguiu dormir mais. Desceu as escadas da casa ainda de pijama, foi a cozinha e pôs a água do café ferver, foi até a porta da sala abriu-a e pegou o jornal. Entrou dentro de casa e em alguns minutos o café estava pronto, pegou uma xícara sentou no sofá e pôs-se a ler as notícias.
Alguém bateu na porta, ela levantou e foi atender. Não havia ninguém, fechou a porta. Logo que virou as costas bateram na porta novamente. Um medo tomou conta do corpo dela, pôs a mão na maçaneta devagar e a abriu, um vento gélido tomou conta da casa, parecia que alguém havia entrado lá só que ela não conseguia ver. 
Ela escutou um barulho no seu quarto, então subiu as escadas correndo pra ver o que era apesar do medo intenso quando chegou no corredor que dava aos seus quartos ela viu um homem de cabelos pretos e roupa preta, a pele dele era branca pálida, os olhos dele eram azuis vivos como os dela, pareciam brilhar. Ele sorriu pra ela e as luzes da casa se apagaram, ela ficou sem ar de tanto medo, algo parecia passar por ela a todo momento e a cada vez que passava acabava cortando-a como se tivesse uma lâmina fina. 
Ela gritava de dor, porque aquilo a dilacerava então ela virava pra todos os cantos a fim de achar aquele homem e procurar um lugar pra se esconder, mas o escuro não a deixava. Ela se virou de costas e deu de cara com ele, os olhos dele brilhavam no escuro como se fosse um gato, ele pegou em seu rosto e cheirou-a de um modo libidinoso, passou a mão em seus cabelos e os cheirou também. 
O rosto dela então mudara de um face de horror para uma face irônica, ela então beijou o homem e o rosto dele começara a ficar negro, as veias de seu corpo ficavam negras azuladas e os olhos dele enegreceram. Ela então o largou e as luzes voltaram a funcionar e o corpo do homem desfalecia na frente dela, secava e se tornava apenas pó.
Ela limpou os lábios e resmungou baixinho "Subestimadores"!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Quando o medo resolve brincar

Eram 2:45 da manhã, o telefone da cabeceira da cama tocou, era o padre Cornelius que mais uma vez me pedia socorro porque Sarius o seminarista havia dado outra crise esquizofrênica, ele jurava que um homem o perseguia pela igreja. Sem mais porquês, peguei as chaves do carro e saí, o padre morava aos fundos da igreja de Santa Lorena e na porta havia uma cruz da mesma. Abri-a e entrei.
Os bancos de madeira estavam bem alinhados, o chão de taco bem polido faziam com que meus sapatos fizessem um barulho irritante. Logo levantei meus olhos do chão e me deparei com o horror, desde pequena cultivei um medo estranho, o medo de imagens sacras. Anjos, cristos, deuses, santos e santas, todos eles me remetem a um estado de pânico, sinto-me perseguida, abafada, encurralada pelo divino.
Naquele instante no altar da igreja uma enorme imagem de Cristo crucificado, no teto haviam anjos, querubins  e arcanjos voando pintados , nas laterais os vitrais mostravam a vida de Jesus até a sua Paixão.
Como louca corri pela igreja e acabei caindo de joelhos em frente ao Cristo, ele como se olhando para mim soltou uma lágrima mas eu vendo aquilo também chorei, chorei pelo medo absurdo que sentia. Me arrastei até a porta dos fundos, esperei que me recuperasse, consegui forças e me levantei, enxuguei as lágrimas e fui ver Sarius.
Olhei-o no canto do quarto, estava tão assustado mas logo abriu um sorriso ao me ver:
-Calma Sarius, ele já foi!
-Você mandou-o ir embora?
-Não, na verdade, acho que ele cansou de brincar com nós dois!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Não durma menina!

Chegou do trabalho cansada, trabalhava só meio período e estudava outro, mas aquilo estava lhe matando. Aproveitando as férias e a ausência da escola, deitou-se na cama dos pais para brincar com o gato, entre mimos ao gatinho ela acabou dormindo naquela cama e com a janela aberta e um sol escaldante brilhava lá fora.
Sonhou algo estranho, não entendia muito bem o que era, era uma sucessão de fatos executados rapidamente, como se fosse uma visão de várias coisas as quais passavam tão rápidas que mal podia definir o que estava acontecendo.
Até que aquela cena estranha e rápida ficou mais lenta, agora ela se via no próprio quarto dos pais, via ela mesma deitada no cama e com as mesmas roupas em que havia ido dormir. Sentiu um queimor no rosto e uma sombra negra vinha pela porta e agora se encontrava do lado do corpo dela adormecido. Apavorada ao ver aquilo ela se encolheu na parede com um medo absurdo que tomava conta do corpo dela. A sombra então pegou no ombro do seu corpo adormecido e a balançou tentando acordar, de repente ela sumiu e acordou já em seu corpo. De certo não se lembrava do sonho.
Notou que os raios de sol haviam atravessado a janela e estavam em seu rosto lhe queimando a pele, levantou-se sonolenta e foi até a janela para fechá-la e voltar a dormir. Voltou a cama depois da janela fechada e quando fechou os olhos e já ia cair em sono profundo a janela do quarto de seus pais abriu-se num estampido feroz. Ela sentou-se num pulo e olhou para a janela escancarada, olhou para o lado e um varal que tinha no quarto balançava de um lado pro outro parecendo um relogio de pêndulo. Ela pôs a mão na cabeça e lembrou-se do que havia acontecido e um medo obsoleto tomou conta dela novamente, se levantou correndo e abraçou o namorado que vinha pela porta pois havia sentido que tinha algo de errado. O homem então abriu os olhos em meio ao abraço e notou que uma sombra observava os dois da porta do quarto, ele voltou a fechar os olhos, fez uma força na cabeça que até sua testa franziu e a sombra se desfazera.

Metrô

Eram três da manhã e aquela moça estranha entrou dentro do metrô quase vazio e sentou-se afastada de todos. Pegou então uma foto do bolso, bem desbotada e pôs-se a olhar ela, era um rapaz bonito de cabelo castanhos e olhos pretos, ela deu um leve sorriso e quando ia guardando um homem de casaco preto sentou-se na sua frente assustando-a.
Era um homem estranho, branco pálido, sem barba, nariz fino, olhos castanhos e cabelos pretos cobertos por uma toca. Ele a olhou de um modo estranho, mas ela manteve a calma, olhou nos olhos dele e de repente eles já não eram castanhos, mas estavam brancos, ela então não se conteve e encolheu-se mais ainda no assento, o homem então se levantou e foi em direção a ela. Num pulo ela se levantou e saiu correndo por entre vagões, parecia que ninguém via o que estava acontecendo, apenas ela, e isso era ainda mais desesperador, pois ninguém poderia ajudar-lhe. Enquanto corre, ela olhou para trás e viu que do homem saía duas asas negras, era uma cena chocante de se ver. Ela correu desesperada, mas aconteceu o que já era esperado, ela parou e se deu conta de que estava no último vagão, e que não tinha saídas. Olhou para trás e viu o homem, cada vez mais desfigurado, cada vez mais assustador, agora dele saía uma pequena fumaça de um odor horrível, e parecia que a roupa dele ia queimando e onde ele tocava parecia derreter.
Ele se aproximando dela deu-lhe uma pancada forte no peito e ela bateu de costas na ultima porta do trem, abriu os olhos com dificuldade e viu que ele se aproximava de novo, ele então ergueu a mão e parecia que o corpo dela obedecia aos comandos dele, e ela então ficou suspensa nesta porta e e então virou-se de cabeça para baixo formando uma cruz invertida. Ela chorava sem cessar e perguntou:
- O que quer de mim? Me deixe!
-Quero te salvar de uma ilusão. Apenas isso. Aceita?- ela não parava de chorar e balançava a cabeça num gesto de negação. Ele então mexeu com a mão e um corte nascera no abdômen da mulher fazendo-a chorar e sangrar muito e ele completou gritando- Você aceita?
-Sim! - disse ela em meio ao choro prevendo a morte se acaso não concordasse.
-Que bom! Sabes que não é este o seu destino, nem o dele!- a foto do homem caiu no chão e foi borrado por uma gota de sangue que caía dela. - Eis que estou aqui, salvar-te-ei dessa ilusão, terás de sofrer de novo, aceita o sofrimento ou deseja voltar?
-Eu vou voltar! - e ela sorriu,, despregando-se da parede e caindo no chão, levantou-se sem problemas do chão. O homem de asas negras sem entender o que aquela mulher fazia começou a ficar alterado.
-O que faz? Volte ao que estava! Eu estou ordenando!
-Cale-se verme! Achas que eu iria ser idiota, achas que não sabia que logo quando eu estivesse "menos protegida" vocês viriam atrás de mim? Claro que sabia,  claro que sabia que um de vocês viria, só estava esperando a hora certa para mostrar-lhes do que sou capaz. Mas vocês me surpreenderam, pensei que iam me mandar alguém mais forte, vejo que me subestimam. Pois darei motivos para verem que não sou uma qualquer caída pela terra.
Ela pegou no pescoço do homem o suspendendo no ar, e onde a mão dela pegou ele queimava em fogo. O toque dela o queimava vivo, e em pouco segundos o corpo dele foi consumido em chamas. Ela sorriu, pegou a foto do homem e pôs novamente no bolso.
Subiu num banco, pendurou-se nos ferros e abriu uma janela que fica no teto para sair, entrou por aquela janela e já no teto do trem ela pulou nos trilhos.
Houve ainda quem dissesse ter visto um anjo de asas brancas e bem brilhante vagando pelos trilhos, tinha aparência de mulher e tinha um papel na mão que de minuto em minuto ela olhava.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Enquanto o fim não chega

Sentados ao cume de um morro, numa pedra grande e de bons olhos, estavam dois anjos. Um anjo de forma masculina, de ombros largos, olhos pretos e roupa encardida. Ao lado dele, estava um anjo em forma de mulher, apesar da Bíblia nada dizer sobre a existência ou não de anjos femininos, lá estava um dos olhos de Deus em forma de mulher a observar o mundo e os seres que habitavam ele.
-Houve tempos melhores!- disse o anjo homem a outro anjo que obtinha a forma de uma mulher.
-Tudo era melhor do que o que está acontecendo agora!
-Tens razão! A terra já não é mais aquela!
-Desde os tempos de pecado a terra vem mudando, caminhando para o seu fim, pobre daquele que não percebera quão mais rápidos as horas correm, quão mais sólida está ficando as bases da perdição humana.
-Mas não tens esperança?
-Tenho esperança no Pai, nos humanos não. Quantas vezes Ele disse aos humanos para terem cuidado? Quantos profetas cairão por terra até que os humanos dêem conta do que esta por vir se este caminho continuarem a trilhar?
-Tenhas calma e não revoltais, sabes que o Pai os ama.- disse o anjo colocando a mão sobre o ombro delicado de mulher.
-Eu sei, mas o Pai criara um ser tão inteligente e tão ignorante ao mesmo tempo. Talvez seja o pecado que lhes fizera assim...
-O Pai sabe o que faz, não devemos discutir sobre isso.
-Tens razão, - ela se levantou e olhou abaixo do morro, havia corpos e guerra, havia rios de sangue, havia uma terra seca, havia corvos a voar, anjos negros a açoitar pessoas e outras series de atrocidades apocalípticas-  separai o joio do trigo, limpai a terra do mal, limpai a água do sangue, matai por Deus, revivei por Deus, ressuscitai aos que lutam em nome Dele. Tomareis o norte a casa dos  que achavam-se donos do poder que é do Pai, tomarei eu o sul, terra donde surgiste a revolução. Vá e ensine o homem ferir aos caídos, ensine-os a calcular o número do inimigo para que não se alarmem ao surgir de falsas bestas. Calai a boca dos falsos profetas e falsos messias, ensine ao homem apurar os ouvidos para que ouçam apenas o Pai. Fazei que levante da terra seca, o alimento dos que são fiéis ao Pai, fazei que o sangue derramado por terra vire água pura a saciar a sede daquele que o segue. Fazei do homem bom o seu discípulo, que ele carregue no ombro a cruz de ser fiel. Derrubaras aquele que ergue a espada para a cruz, que blasfema, que queima o templo, que senta no trono a não ser Deus. Ensinará ao homem o segredo da fé, ensinai a ele derrubar o inimigo com uma prece e a negar a Lucifer o poder da crença humana. Assim, como os humanos lhe ensinaram o dom de amar, eis de ensiná-los a sobreviver e a lutar contra o Traidor. Vá, partir-ei agora! Fazei o que Deus lhe pede e salvei o mundo. Há de sermos agora os pastores, separaremos a ovelha negra da ovelha do Senhor, salveis a ovelha perdida e lutais contra ladrões e saltadores. Faça-se em mim a vontade do Pai.
Os Anjos então olharam-se nos olhos, aproximaram-se um do outro e se beijaram. Ali estavam os dois Anjos do Senhor encarregados de ensinar ao homem o poder da Fé, e estava ali o homem a ensinar aos Anjos o poder do Amor.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Enviada Dele

Ela estava parada na esquina inquieta, e dois policiais também estavam lá de patrulha, todos olhavam para os lados assustados, pareciam que os três esperavam o mesmo alguém. Ao fundo da rua, algo vinha surgindo, o sol  estalante daquela tarde fazia subir do chão aquele mormaço. Lá vinha um homem louro, de olhos claros, vestia um blusa vermelha e uma calça jeans.
A mulher entrou dentro de um carro vermelho, escondeu-se pendurando ao teto do carro. Neste meio tempo, o homem alcançava os policiais e os trucidava sem o menor arrependimento e o sangue manchava a rua. A mulher então levantou sua cabeça no teto solar do carro que acabava de acionar, e nada viu. Sentiu-se aliviada.
Desceu do carro, abaixou a cabeça e quando levantou-a novamente o homem estava perante ela, o mesmo que havia trucidado os policiais. A cara de assustada deu lugar a cara de uma mulher decidida. Ele a perguntou:
-O que faz aqui?
-Vim lhe adorar!- disse ela dando um beijo nele.
Ele então pegou em seu ombro e a conduziu a um galpão, lá centenas de pessoas estavam em frente ao palco, e ao ver o homem, elas deram caminho para que passassem rumo ao palco. Assim como ela, eles estavam lá para adora-lo; mas ele ainda não sabia que aquela mulher guardava dentro de si, algo muito diferente do que ele poderia oferecer ao mundo: PAZ.
E que mesmo que necessita-se jogar sujo como os demais seres inferiores ela o faria, pela PAZ do mundo. E morreria ali, se Deus lhe ordenasse que morresse. Por enquanto, mentir, era o que deveria, enganar era o que planejava, até que o seu objetivo fosse alcançado.
Olhou aquelas pessoas que não tinham brilho nos olhos, não tinham mas Deus, na testa: algo gravado, mas não podia identificar. O ser dentro daquela mulher queimava-lhe diante aquilo, mas devia esperar. Os planos de Deus ainda não tinham se concretizados, e ela servia a Ele, por Ele e para Ele.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

E quando era fim...

Aquele anjo andava sobre trevas, nuvens negras, azuladas e vermelhas, como se fosse fumaça,e nenhum sinal de sol, apenas uma luz por de trás das nuvens as faziam mais tenebrosas. Ventos fortes sem direção nenhuma, vinham dos quatro cantos do mundo: folhas, sementes, poeira, papéis e outras coisas voavam por entre ela, mas nada a atingia, parecia até mágico, pois as coisas pareciam até desviar dela.
As pessoas pelas ruas andavam como se estivessem procurando alguma coisa, talvez esperança. Andavam semi-nús, roupas rasgadas, na verdade trapos. Só se ouvia gritos de dor, explosões, armas, e por trás do Anjo a poeira subia como se estivessem explodindo tudo por onde ela passava tentando atingi-la, mas nada a fazia parar de caminhar.
Usava uma blusa cinza rasgada, a calça jeans, por onde andava rasgava-lhe a roupa a fim de fazer curativos naqueles que estavam a urrar de dor. Nas costas, onde havia surgido as asas, ainda jorrava sangue.Cabelos compridos, sujos de suor e sangue, olhos caramelo, e pés descalços.
Estendia as mãos como se tentasse uma energia que lhe indicasse algo bom em meio aquela guerra, andou mais ainda, encontrou um campo de rosas do lado esquerdo e uma campo de milho a direita, havia crianças morrendo de fome e comendo aqueles míseros grãos de milho seco, naquela época de guerra só aquilo restavam-lhes. Sentiu-se inútil, de que adiantava um anjo naquele local, se no mundo inteiro havia infestação do que havia mais impuro, a peste, a fome, a ganância, a vaidade, o ódio...
Sabia que não tinha mais força naquele momento então ajoelhou-se no chão, mas as crianças tão fracas e suas mães olhavam-na com os olhos cheios de esperança. Ergue a cabeça aos céus e disse:
-Pai, se tu me pusestes aqui, se tu me deras um fardo tão pesado era porque sabia que podia contar com tua filha. Pai, faça da sua parte que da minha...- ela olhou para as crianças- da minha eu farei.
Ela estendeu as mãos para os dois lados da estrada, indicando as plantações, respirou ofegante. Soltou um grito de dor que pode-se ouvir nos quatro cantos do mundo, e por meio de suas mãos uma luz forte e as duas plantações rejuvenesceram, e o milho estava sadio e bom para alimentar-se. As crianças e as mães saciaram sua fome, mas era pouco ela sabia, havia no mundo milhões de pessoas com fome, e era necessário fazer mais. Abaixou as mãos e começou a chorar.
As rosas florescendo voaram pra todos os lados, junto com o vento que levava folhas secas, agora levava rosas brancas para todo o mundo. Ela abaixou a cabeça e lá ficou por alguns minutos, logo depois, sentiu uma energia boa, que lhe dava forças. Levantou os olhos e a sua frente estava Ele, outro Anjo. O Anjo o qual ela amava, apesar de que seria estranho o amor entre os anjos, mas a convivência com os humanos havia lhe ensinado o dom de amar.
Eles então se abraçaram forte, e uma luz branca saiu do abraço dos dois, e todas as plantações secas do mundo, foram enverdecendo e dando frutos.Todos os lobos morriam queimados. Todas as pessoas foram curadas da peste, todas as nuvens negras iam embora e o sol aparecia deslumbrante. Ouvia-se trombetas e outros anjos a cantar, e todo o mundo levantou-se e olhou para o céu e agradeceu a Deus. Ele havia feito a parte dele, e o Anjo havia feito sua parte. O amor contido no que ela fez, reviveu os outros anjos mortos nas batalhas, o amor dela pelo outro anjo... havia salvado milhões. E quando era fim aquele amor cultivado pelos seres humanos, aquele amor entre homem e mulher havia contagiado ambos os anjos que acabaram salvando o mundo e aqueles que nele habitavam.

sábado, 13 de novembro de 2010

Amar não é...

Era para ser um dia normal de fim de semana na pacata vida daquela garota, ia ao cinema ver os lançamentos de filmes de terror, seus favoritos. Na ultima gaveta do criado-mudo, uma foto entre meio os papéis, era ELE, aquele que fazia o coração dela disparar a cada vez que seu nome era dito, aquele que fazia ela se arrepiar a cada toque inocente a sua pele.
Pensou que ele poderia estar lá no cinema já que gostavam das mesmas coisas, arrumou-se como nunca, enfeitou-se com a maquilagem nova que havia ganhado de Natal, pôs a roupa nova que guardava para o dia em que ela iria fazer algo grandioso. E sim, era aquele dia em que ela lhe diria tudo, do quanto chorou, do quanto o amou, de quantas vezes morreria por ele e outras coisas do gênero de uma mulher perdidamente apaixonada.Pensou nas milhões de coisas que ele poderia dizer, ela queria que ele dissesse que ela era a razão da vida dele, e que sempre a amou, mas que esperava o momento certo para dizer isso, ele então diria que queria passar a vida com ela, ter filhos, construir uma casa arquitetada pelos dois, e que abandonaria tudo por ela, e traria toda a felicidade do mundo apenas por ela.
Saiu de casa confiante, seus olhos brilhavam como nunca, as pessoas observavam aquela garota passar por lá depois de muitas vezes vê-la triste, acanhada, agora estava radiante, transbordando alegria.
Há poucos metros da bilheteria, ela o viu. Seu coração disparou, suas mãos suaram e borboletas voavam na barriga dela, respirou fundo, recuperou o lindo sorriso no rosto e seguiu em frente.
Ela se aproximou dele, pensou que iria cair de tanto nervoso. Gaguejou:
-Oi!
-Olá, eu estava mesmo te procurando!
-Oh, sério? - disse ela meio que sorrindo.
-Sim, eu sei que você é minha amiga, mas queria dizer que estou apaixonado! - ele disse isso e ela esboçou o sorriso mais lindo já visto no rosto dela. - Mas eu não sei como dizer isso a ela, ele vem aqui hoje e precisava que você me desse umas dicas, quero dizer que gosto dela, mas não sei como!- o sorriso dela então foi se desfalecendo aos poucos e os olhos se encheram de lágrimas. -Por favor, ela é tudo que eu quero e ninguém mais me importa, me ajuda vai!- ela se virou de costas para ele a fim de que ele não notasse as lágrimas.
-Diga a ela que ela é a razão da sua vida, e que sempre a amou, mas esperava o momento certo para lhe dizer, diga que quer passar a vida toda com ela, ter filhos, e que vocês dois vão construir a casa juntos e que você abandonaria tudo por ela, e que traria toda a felicidade do mundo apenas por ela.
-Nossa, que lindo! Ela vai gostar?
-Não sei ela, mas eu amaria ouvir isso de você!- disse ela cochichando entre meio as lágrimas, e foi se indo, logo atrás a moça a qual ELE se apaixonou chegava e ele dizia tudo aquilo a ela.
Caminhou sem parar pela rua, e uma fina chuva começava a cair. As lágrimas do céu, lhe tiravam o salgado gosto das lágrimas de amor, ela ajoelhou-se no chão, olhou para o céu, deixou com que a chuva lhe tirasse todo amor, lhe tirasse todo ódio, lhe deixasse pura de tudo. O sol então, apareceu entre nuvens, fazendo com que lhe queimasse a raiva novamente dentro dela, o desespero, a desilusão. As nuvens então cobriram o céu novamente e a chuva voltou a cair sobre ela, lhe fazendo bem, lhe tirando tudo o que havia de lhe machucar, deixando adentrar nela o perdão e a sabedoria que a chuva lhe ensinara, que :
Amar não é querer a pessoa amada ao seu lado,
 mas querer que ela seja feliz,
 mesmo que a felicidade dela não se encontre dentro de você!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Cada Pallomah que me acontece

A enfermeira pegou a injeção de adrenalina:
-Rápido estamos perdendo a mãe!- disse o médico tentando manter a calma.
-Mas doutor a criança não está chorando!- exclamou a enfermeira em ataque de nervos.
-Dê-lhe um tapa na bunda!- afirmou o médico escutando um estampido forte no ouvido e logo depois um berreiro grande. - Eu falei pra dar-lhe um tapa, não para espancá-la!
-Mas ela esta viva oras!- enraiveceu-se a enfermeira.
O médico aplicou a injeção na mãe, e logo os batimentos voltaram ao normal, ele então enxugou o suor do rosto e terminou a operação.
Em frente à maternidade um homem loiro segurava aquela criança que não queria chorar, sua mãe havia acabado de sair da mesa cirúrgica há pouco tempo e agora estava dormindo. Aquele homem não era o pai, na verdade, a sua mulher estava dando a luz naquele instante a um menino, mas como o pai daquela criança ainda não havia chegado ao hospital, o jeito foi segura-la.
Virando o corredor, um homem moreno vinha mancando depressa com uma mamadeira com chá verde, este sim era o pai da criança que havia feito uma cirurgia há poucos meses. Ele passou direto pelo homem loiro, nem olhou, e foi direto para a maternidade procurar uma criança.
- Ei senhor!- gritou o homem loiro.
-Cara, num posso agora to procurando meu filho!
-Mas senhor...                                                
-Já falei, estou procurando meu filho!
-Mas este é o seu filho!
-Não, este é o seu, o meu deve estar por ai!
-Não, este é o seu, o meu está nascendo!
-Não, esta criança não pode ser minha, criança feia demais, olhe como é o nariz dela é grande, suas orelhas são abertas como antenas parabólicas, não, não é minha esta criança!
A porta do quarto onde estava sua mulher se abriu, era o médico pegando na mão do homem moreno:
-Parabéns senhor Geraldo! É uma linda menina, parece muito com o senhor!
Geraldo pegou a menina nos braços, deu cutucadinhas no nariz dela e entrou no quarto, sua mulher estava na cama deitada, ele sentou na beirada da cama com o neném nos braços.
A mãe sorriu em meio a lágrimas vendo aquela menininha se alimentar de seu leite, chamou-a de Pallomah.



Criança franzina, quem não a conhecesse diria que era desnutrida, mas na verdade, era magra de ruim mesmo, porque comer era com ela. Cabelo de cor indefinida, digamos cor de mel, corte chanel e franjinha acima dos olhos espertos pra não dizer custosos. Sorriso sapeca, típico de criança que dá trabalho, no bochecha duas covinhas se fazia, rostinho bem definido, uma graça de menina se não fosse sua língua grande. Não havia quem escapasse da sua língua afiada.
-Pallomah beba esse leitinho com café!- disse avó Maria.
-Vó, este leite está azedo!
-Não está não comprei hoje.

-Vó, largue de ser boba, este leite está coalhando, não quero, só quero café!
E lá se ia a vó Maria pegar café para aquela pestinha.
Quando ainda pequena sofreu de uma doença no cérebro, causado por um trauma durante a gestação que causou problemas na formação do tubo nervoso central, tinha pequenas deficiências no corpo quase imperceptíveis, nada demais, teve disritmia cerebral e por isso era hiperativa.

Confesso que esta sou eu, Pallomah F. Silva, não conto o sobrenome do meio porque eu o odeio de morte, se pudesse já havia lhe enforcado e atropelado três vezes, mas como não é possível, deixo-o oculto até que ninguém se atreva a perguntar. Ferreira? Fontes? Ferraz? Furlan? Não. Fátima. E sem mais comentários!
De certo, acho que a vida quis divertir um pouco as pessoas, então eu nasci pelada, banguela, orelhas abertas, nariz grosso, e lá se vai cacetadas. Então nada tenho a perder!
Eu já fui criança levada, já fui Power rangers negro (porque rosa e amarelo já eram das minhas outras duas melhores amigas), como sempre fui a mais “pervertida” e mais macabra das três, era a Power rangers negra!
Lá se foi uma infância, três meninas. A primeira era de cabelos pretos compridos de pontinhas enroladas; a outra loira de cabelos cortados como de menino, gordinha e baixinha; e a última de cabelos cortados tipo Chanel, franjinha nos olhos, magrela e comprida. Eram três as quais nunca deixavam de brincar, a brincadeira é uma verdade, uma ilusão de que eram aquilo que eram para ser. E que fosse daquele modo, pois nada tinha de mentira, nada de sujeira, o mundo era um quintal!
Saudades...
(Continua... qualquer dia)

Desabafo

Eu poderia achar um milhão de definições mais para meros sentidos, se não fosse pela minha pouca presença de lucidez. De certo, não fosse por isso que me amarraria em uma blusa branca encardida e me jogaria num sala de paredes aconchegantes, talvez seja ainda muita lucidez para um louco. Então eu lhe diria milhões de versos estranhos, sem nexo, que vem da boca como se fosse oração de uma criança tão triste, fé automática, insanidade de momentos. E eu poderia me castigar por estar escrevendo coisas as quais ninguém achará sentido e que de nada há glória ou perdão, e se Deus ver o que eu escrevo, de certo, mandará um raio aqui; mas não faço por mal, é porque gosto e vejo sentido, que culpa tenho eu se não podes ver a alma que habita por tras das palavras?
E você me chamará de louca mesmo assim, talvez demente, um eufemismo apenas para acalmar todas as opiniões, mas sabes que nem me importo, desde que o mundo é mundo, nenhum humano é normal. Louco seria eu se robotizasse meus gesto e torna-se apenas mais um. 
E se me julgas, já não sei o que fazer com você! Ah meu Deus o que fazer? Esqueço-me que já não me escutas, mas deixe isso de lado e cá entre nós eu nunca fui um livro aberto para aqueles que me veem e leem o que escrevo!
Mas é segredo o que está entre eu e as palavras, foi um acordo de anjos, eu escreveria e eles dariam vida e alma para o que escrevo, e assim nasce, vive, cresce e evolui aquilo que tu ledes, tudo que há em mim, tudo aquilo que sou e que você ainda não entendeu !

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Passado nunca morre!

Acordou assustada, já se fazia um mês que sonhava com as mesmas pessoas e aquilo lhe frustrava, um homem velho de olhos verdes, pele flácida, cabelos compridos, ralos e grisalhos, lhe dava medo pensar nele, era um velho tão estranho, com ar tão malévolo que lhe arrepiava cada vez que pensava nele. Havia um homem com traços orientais, cabelos médios e bem negros, sempre usava um terno preto e tinha um ar de superioridade e de fato era atraente, não sabia porque, mas aquele homem lhe lembrava o que havia de mais mal na terra, pois ele mentia com os olhos, com o belo sorriso. O outro homem era o que mais lhe intrigava, no começo dos sonhos que ela tivera com eles, ele era assim como os outros, mal, de hábitos cruéis. Mas com o passar dos sonhos, ela conseguira quebrar a barreira que ele obtinha e ele se tornou mais amigável, ela sabia que ele estava fazendo algo errado, só podia  ser isto, sempre queria mata-la ou fazer qualquer mal a ela e aos amigos dela, chamou- o sempre de Daemon. Mas por trás daquilo tudo, havia um sentimento que ela cultivava sobre ele, ela sabia que ele também gostava dela. Mas naquela noite o sonhos fora tão estranho, Daemon ia embora com os outros como se fosse obrigado, pareciam discutir e depois daquilo nunca mais sonhou com eles, na verdade, depois daquilo, ela nunca mais sonhou.
Dois anos se passaram desde aqueles sonhos, mas ela ainda não esquecera aquele belo rapaz loiro de cabelos curtinhos, olhos azuis e ombros largos, nada fazia ela esquecer aquela barba mal feita, nada!
Aquela melancólica tarde de sexta feira, ela estava debruçada sobre a janela daquela casa azul, observava de longe a igrejinha de sua cidade. Já eram seis horas, o sol se punha e uma triste Ave Maria estava tocando no som da igreja. As gaivotas voavam sobre o céu laranja e rastros de nuvens brancas deixavam tudo tão mais tenebroso. Ela debruçada na janela, sem ânimo para nada, apenas sentia aquela brisa fria a bagunçar seus cabelos, e como se sentisse que estava em um sonho, uma sensação estranha de liberdade recaiu-se sobre o seu corpo, e ela abriu a porta e saiu pela rua. Andou em linha reta, as coisas pareciam tão irreais, as folhas secas voavam por volta dela, e logo o céu escureceu, num medo absoluto daquilo ela apenas mexeu com os lábios e soltou um pequeno gemido:
-Deus!
Então caiu no chão de joelhos, como se aquela palavra lhe tivesse tirado todas as forças e como se o chão aclamasse por ela. Levantou os olhos, e lá em frente a ela, os três homens estavam, o velho de cabelos compridos, o japonês de terno preto e o homem o qual nunca deixou de existir dentro dela. Não sabia se chorava ou se sorria, resolver rir entre meio as lágrimas, o homem loiro então abaixou-se pegou na mão dela:
-Está na hora de esquecer tudo, o homem o qual chamou não está olhando por você. Somos nós quatro apenas.
-Mas, como assim não olha por mim?
-Levante-se, de agora em diante temos todo o tempo do mundo para lhe explicar!
Ela então se levantou, olhou nos olhos dele e eles se beijaram, era o amor que havia atravessado as barreiras do imaginável e do não imaginavel. Eles então seguirão sem olhar para trás. O velho então virou-se, olhou para cidade vazia e sorriu.
Há uns metros dali, numa casa azul, atrás de uma janela, uma mãe chorava sobre o corpo da filha que morrera com um discreto sorriso no rosto e uma lágrima que ainda escorria pelo rosto pálido.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Senhora Morte II

E neste meio encanto, pedaço de vida, seria infame dizer que sonho é algo natural!
São palavras sem sentido, nexo ou contextos, são seres inanimados ganhando vida num simples papel de carta, são seres sendo levados por um envelope branco cheirando a flor...
Eu não lhes daria a vida, não lhes mostraria o caminho do sonho, nem por um segundo ou eternidade sequer...
E por mais que quem leia não entenda, eu entendo, sinto e observo que os mares não são os mesmos, e o mundo já não é mais meu...
São tão apocalípticos os silogismos que eu diria que fora Senhora que tivesse escrevido, se não notasse que os pingos nos i's são tão mais leves... tão mais suaves... E tal Senhora nunca fora tão pesada sua consciência!

Senhora Morte I

Acha que eu deveria parar de sonhar só para por os pés nos chão?
Acha que eu deveria deixar de viver parar morrer?
Acha que eu deveria parar de ser para não mais existir?
Acha que eu devia escrever para que matasse este meu ser aqui dentro?
Acha que devo acreditar em Deus para ter fé?
Acha que devo estar em pé para manter autoridade?
Acha que devo andar de cabeça erguida para mostra-lhe força?
                                    Não, eu sou, o meu SER, e nada fará ser diferente,
      nem se eu parar de existir, 
                                                         o meu SER ainda habitará cada homem nesta terra...

Grito

Para quem declamar poemas de amor, se o amor que era já não é mais,
o amor de hoje já não se chama amor, agora é só futilidade?
Para que acalentar-me nos braços de alguém, se esse alguém já não é o mesmo,
se o mundo já lhe mudara e transformara em outro ser o qual não conheço?
Para que sentir frio, se o calor desta existência já me queima por dentro,
se apenas existe o frio da angustia e te-la, nada me fará bem?
Para que gritar a felicidade, se ela já não é a mesma felicidade de antes,
se esta felicidade não passa de acomodação?
Para que realizar um sonho, se o sonho já não é mais sonho,
se o imaginar já não é idealizado?
Para que chorar de dor, se a dor é algo relativo,
se a dor já não dói tanto quanto o pensar?
Para que escrever versos, poemas e prosas, se ninguém irá ler,
se ler já não entenderá?
De que vale a palavra se não acompanhada de amor, de inspiração em alguém, de sentidos, de sentimentos?
De que vale a palavra se são só palavras? De que vale?
Sim eu grito, eu grito por que sentir me faz ser!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Amor doentio

-Eu te amo!
-Não me importo! Eu amo outro!
-Mas ele não te ama como eu te amo!
-Sim, ele me ama mais, ele não quer que eu me mate, ele não me julga!
-Mas ele não te conhece como eu conheço.
-Não me importo, você acha que quero passar minha vida contigo? Não, eu não quero!
-Você passou a vida toda comigo, sempre fomos felizes juntos!
-Mas minha vida não é só você, há outras coisas além de você as quais eu quero viver, já disse deixe-me!
-Mas e eu? O que farei sem você aqui?
-Eu sempre estarei aqui, você nunca ficará sem me ver, eu estarei em você e você estará em mim, entenda!
-Mas eu te quero só pra mim! Eu sou egoísta te quero só pra mim, você é só minha, você é que tem que entender!
-Não, eu arranjei alguém que me ame, e eu o amo, eu continuo te amando, é inevitável não te amar, mas é que seu amor é nocivo... Você tem que abrir a mente para outras coisas! Ele também te fará bem! - ela passou a mão sobre os cabelos, num gesto de desespero e pôs-se a chorar.- Entenda, além de você há muitas outras coisas a se viver, por favor! Se você me ama, me deixe viver, assim nós viveremos felizes!
-Levante-se do chão, por favor! Eu te amo, então, deixarei você viver com ele, se isso fazer sua felicidade! Mas se ele não te fizer feliz, você sabe onde me encontrar!
Ela se levantou, olhou para frente, estava em frente ao espelho quebrado do quarto vazio, falando consigo mesma, eram duas, se amavam, o quarto? O lugar de encontro das duas amantes, egoístas o bastante para quererem uma a outra apenas para si! O seu eu que se manifestava, o seu eu que amava a si própria, no amor mais doentio da história!

Transitoriedade

Confesso que seria complexo, sem nexo e contexto descrever o ser, se o coração que nele bate, é infame, e eu não seria abstrata o bastante para atribuir-lhe os sonhos, os medos. Poderia então poder me chamar de Senhora Morte, impiedosa e cruel, por matar-lhes os sentimentos humanos, ao pensar que em um papel eu pudesse descrever tal natureza infame que és. E então pudera perguntar:
-Senhora morte, se já mataste meu peito, porque não matastes minha mente e levastes meu corpo ao mais profundo calor da terra?
Eu dissera então com a boca seca, lábios púrpura, morte sem vida:
-E já não vede que estás onde queria? Matei tua vida, teu ser, tua essência, sobraste com a matéria, com a carne, e apodrecerá aqui, diante terra, morros e seres, mostrará que viestes para o coração, para ser. Então os seres saberão que mais que mente e de razão, um ser é feito! Pensarás que sou má, impiedosa por te deixar viver morto, sem peito, sem coração, sem sentimentos, pura e pecadora carne movimentando-se como larvas; mas ei que lhe digo homem, não sou má, a morte veio para abrir-lhes os olhos dessa vossa transitoriedade!
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domingo, 31 de outubro de 2010

Eu era... já não sou mais

Eu era aquele pequeno verso escrito no seu caderno,
aquele sorriso que te recepcionava na escola,
eu era aquela lágrima de luto,
aquele singelo  pedaço de papel que você escrevia músicas;
Eu era a chuva no fim da tarde de domingo, 
aquele sonho que te fez acordar a noite,
eu era aquele acorde de violão na porta da igreja,
aquela nuvem que você quis descrever;
Eu era aquela parte de você que você esqueceu, 
aquele tom de vermelho por de trás das montanhas,
eu era aquele relâmpago na tempestade do norte,
aquela sombra a porta de sua casa;
Eu era aquela brisa que tocava seu rosto,
aquele aroma que invadia tudo ao seu redor,
eu era aquele poema de letras temidas em cima da sua mesa,
aquele ser que vivia por você e para você...


Eu era... 
mas já não sou mais...

sábado, 9 de outubro de 2010

Estranho cliente

Todas as tardes sentava-se na mesma mesa, pedia o mesmo cardápio: um café expresso sem açúcar e bolachas com gotas de chocolate e lá se iam horas sentado numa cadeira marfim olhando a garçonete. As vezes pedia que ela sentasse com ele e nada dissesse, a presença dela já completava o vazio daquele homem. Pouco sabia sobre ele, seu nome, Wesley, trabalhava numa empresa de desenvolvimento de software, um típico homem cansado da mesmice que a vida urbana poderia lhe oferecer. Sempre pensara que ganhar dinheiro fosse o que queria da vida, mas não era, em seus anos de experiência já lhe surgira escassos fios grisalhos no cabelo de tamanho médio que cultivava desde a sua época adolescente a qual gostava de sentar-se em frente do computador e conversar com desconhecidos.Perdera o entusiasmo de vida mas nunca o olhar inquieto que era sua marca, aquilo era um sinal de que ainda havia esperança dentro daquela existência.
Naquela tarde de sexta ele estava diferente, não sabiam o que, mas ele se encontrava num estado de espírito diferente do que os funcionários daquele Café que conviviam com ele há dois anos já haviam vivenciado. A garçonete estava em pé atrás do balcão servindo café a um velho, Wesley então, passou por trás do balcão, puxou-a até o meio do Café, pegou-lhe as mãos gélidas da moça e disse que havia deixado o trabalho e que havia conseguido um negócio melhor no exterior e queria leva-la com ele. A moça então deixou-lhe cair uma lágrima escorria pelo rosto, soltou um pequeno suspiro abafado dentro daquele peito amargurado e a abraçou-o. Acho que aquele era o "Sim! Eu vou com você!" que ele tanto esperava.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Peça Teatral: Sobe e desce e só sobe mais tarde!

Personagens: Moça, Conquistador, Velhinha, Menino, Ladra e Velhinho

De cada vez um personagem entra como se fossem entrando a cada andar que o elevador passasse, estabelecendo esta ordem: Conquistador, Velhinha, Velho, Moça, Menino e depois o ladrão que entra correndo com uma mochila cheia de coisas roubadas. Quando ele entra, todos com cara de assustados dizem: “Nossa!”. Enquanto isto o Conquistador olha para a bunda na moça e diz um “Nossa!” totalmente diferente admirando a bunda da moça. O Menino olha para a Ladra:
Menino: Minha mãe disse que é errado ser ladrão!
Ladra: Meu parceiro diz que é errado ter um menino, diz aí filhão!
Nas costas da Ladra o bebê dela se encontra amarrado a ela, o bebê no caso boneco, tem gorro de Corinthiano, tatuagem no braço, barba e na mão tem uma faquinha.
Menino: Você traz seu filho quando faz um assalto?
Ladra: Claro, educação se dá com exemplo, acabei de ensiná-lo como é que zoa com as madames, menino esperto! Quem é o matador da mamãe? Quem é? É Maike Jacks, que lindo!
-Ah ta então!
O menino olha com uma cara de assustado com a situação. Agora a velhinha olha para a moça, põe a mão no peito.
Velhinha: Lembro-me quando tinha o seu corpo, eu era uma das vedetes mais lindas do teatro municipal. Era purpurinas, penas, jóias, maiôs justíssimos e ...
A velha então começa a cantar e dançar “Sei que eu sou bonita e gostosa, sei que você me ama e me quer” ela então ri escandalosamente e começa a tossir desesperada por ar, pega uma bombinha de ar e aspira, toma fôlego de modo desesperado. Dá um sinal para a moça esperar, e só então recomeça a falar.
Velhinha: Mas com o passar dos anos tudo desmoronou. Tudo caiu.
A velha choraminga.
Moça: O teatro caiu?
Velhinha: Não. As coisas começaram a cair literalmente, primeiro foi o seio esquerdo, depois o direito. Já a bunda, meu Deus! Essa caiu de uma só vez, foi plaft no joelho!
O Conquistador observa a cena com nojo.
Moça: Deve que foi muito difícil não é?
Velhinha: Que nada! Foi só passar dos 40 e tudo murchou como um balão furado. Foi só um Fuimmmmmmm e depois pziiiiiiii. Mas por um lado eu aproveitei minha vida ao máximo, seduzi senadores, governadores, presidentes, sapateiros, pagodeiros, cheiradores de lança-perfume, assassinos de aluguel, feirantes da 25 de março, motoristas de caminhão, sobreviventes de guerra.
Conquistador: Sansão, Judas, Abraão, Mun há...
Ele então começa a rir, a moça olha para ele com cara de desaprovação.
Conquistador: O que foi? Não entendeu a piadinha? Mun há? Múmia? Velhinha? Em?
Alguém então bate na porta do lado de fora e faz-se um estrondo simulando que o elevador tenha caído, e então é jogado um pó sobre eles. Logo o Velho se levanta e dispara a correr de um lado para outro, se debatendo contra as paredes tentando sair.
Velho: São os russos, são os russos, fujam para as colinas!
A velha então bate na cara do velho.
Velhinha: Se aquiete homem, firme, firme!
Mocinha: Estão todos bem?Alguém sabe o que houve?
Ladra: Acho que o elevador não suportou o peso.
Moça: Não pode ser sempre descemos neste elevador com treze, quinze pessoas e nunca houve nada de grave aqui e logo agora que somos apenas seis.
Ladra: Mas nunca ninguém desceu depois de eu ter cortado os cabos!
A Ladra olha todos com uma cara lerda e eles respondem apenas com cara de tédio, o Menino se levanta todo cheio de pó e Moça tira-lhe o excesso de pó com uma broxa de pedreiro que estava na bolsa dela. O Conquistador se levanta, espreguiça-se, tira o pó do corpo, solta um suspiro que deixaria qualquer um desconfiado de sua masculinidade e então solta um grito ensurdecedor apontando para as mãos da moça.
Conquistador-Gay: Ahhhhh, tampe isto, tire isso da minha frente! Ai, dói,  meus olhos ... ahhhhhhhhhhhhhhhh!
Moça: O que foi?
Conquistador: Sua unha.
Moça: O que tem sua unha?
Conquistador: Está quebrada!
Então todos exclamam “Ohhhh!”, mas depois balançam a cabeça e exclamam estarem confusos “Ahn?”. A Moça então dá um tapa na cara do Conquistador-Gay.
Moça: Se aquiete homem! Firme, firme!
Conquistador: Você está louca? Sabe quantos pilings terei de fazer para tirar está marca? Sabe? Sua horrorosa!
Moça: Você está louca? Sabe quantos pilings terei de fazer para tirar está marca? Sabe?(repete de modo irônico fazendo gracejos)Oh, Oh!
A moça mostra a mão ameaçando-lhe.
Menino: Hei gente! Vocês não percebem que estamos presos em um elevador e que com certeza alguém pode estar lá fora nos procurando? Será que sou o único adulto daqui?
Todos olham para ele com cara de tédio.
Moça: Então é melhor pedirmos socorro civilizadamente, por favor!
Ela então começa a berrar como uma louca e os outros também, até que ouvem um grito de resposta.
Voz um: Tem alguém aí embaixo?
O eco responde: baixo, baixo, baixo...
Velhinha: Tem.
O eco responde: tem, tem, tem...
Voz um: Vocês estão presos?
Velhinha: Sim.
Voz um: Onde?
Velhinha: No elevador.
Voz um: Que elevador?
Velhinha: O que está aqui embaixo.
Voz um: Ah sim, é mesmo! Bem que percebi que não tinha elevador aqui em cima!
A voz some. O Conquistador empurra a Velhinha.
Conquistador: Deixa eu brincar de eco também. Ai deixa eu ver. Sorvete de pistache.
O eco responde: tache, tache, tache... Ele então continua.
Conquistador: Sabão de coco, salada mista, passei um sufoco escorreguei na pista, gosto do Arnaldo gosto do João, gosto de todos, é muito...
A moça tapa-lhe a boca antes que saia a ultima besteira.
Moça: Hei moço cadê você?
Voz dois: Oi tem alguém aí?
A voz é nordestina.
Moça: Sim, moço é você?
Voz dois: Que moço o quê bichinha eu sou cabra da peste!
Moça: Ah ta então!
Voz dois: Mas chegue aqui bichinha, que é que você ta fazendo aí embaixo?
Moça: Estou presa no elevador.
Voz dois: Tem muita terra aí?
Moça: Nãoooooooooooo, que isso, tem é água.
Voz dois: Quer então que eu chame a guarda-costeira ou a marinha?
Conquistador-Gay empurra a moça.
Conquistador-Gay: A marinha, lá tem cada bofe escândalo!
A moça o empurra.
Moça: Nãooo, chame os bombeiros para nos tirar daqui, por favor!
Novamente o Conquistador a empurra.
Conquistador: Pode ser também, só bombeiro para dar conta do recado! Meu Deusss!
Voz dois: Mas sabe o que é bichim? É que eu to numa moleza, numa bambura, numa canseira que da dó no ser.
Moça: Por favor, é questão de vida ou morte!
Voz dois: Ah, então tudo bem. Vou chamá-los!
Conquistador: Ta, e quando você voltar estarei te esperando!
Moça: O que aconteceu com você?
Conquistador: Ué, nada, eu só estou querendo curtir.
Momento de silêncio.
Voz dois: Moça!
Moça: Oi.
Voz dois: Eu liguei para os bombeiros.
Moça: E aí, o que eles disseram?
Vos dois: Disseram que só vão poder atender daqui a duas horas.
Moça: Por quê?
Voz dois: Ah, disseram que estão fzendo churrasco na laje do corpo de bombeiros,  ta rolando maior pagode lá e se deixarem a carne lá, La se vão R$ 150,00 do dinheiro público jogado fora.
Moça: Ah sim, compreendemos.
Menino vai se achegando e observa com certo interesse a cabine.
Menino: Se bem entendo, estamos num elevador 4X3 feito de uma liga muito forte de aço inoxidável com nox igual a 12, levando em conta a humidade relativa do ar de 20 % e sua densidade, a gravidade do ar de 9,8, o calculo da soma da tangente, o seno e o coseno do triangulo eqüilátero nasal deste deliquente ali do meu lado e a temperatura geotérmica deste subsolo de 40°. Presumo que ainda temos 1 hora de oxigênio.
Moça: E o que você acha que podemos fazer?
Menino: Sugiro que matemo-nos uns aos outros até que reste apenas a metade, assim teremos duas horas de oxigênio. Começando por este marginal e sua cria, pois o nariz dele é desproporcional a quantidade de ar que provemos.
Ladra: Não, não, eu sou filho de Deus e mereço viver!
Velho: Acho que já vivi demais, sobrevivi a golpes de estado, guerras, ditaduras, dilúvio, oh não, esse não foi eu. Mas voltando aqui, acho que já está na hora de morrer e enfim encontrar-me com meu amor Dercy!
Conquistador-Gay: Concordo plenamente e assino embaixo.
Moça: Você não tem coração não?
Conquistador: Tenho, mas bem que poderia ter dois peitões bem grandões e empinadinhos assim!
Ladra: Eu tenho cordas!
Menino: Agora é só um lugar para pendurar e um banquinho! E thiarammm! Vai ser um enforcamento daqueles!
Moça: Esperem aí! Vamos ser racionais, não é provocando morte que vamos sair vivos daqui! Temos outra escolha, eu sei que temos!
Menino: Por acaso alguém faz fotossíntese?
Moça: Nãoo!
Menino: Então não temos outra escolha!
Diz ele feliz já com a corda na mão fazendo gracejos. Uma voz então surge, desta vez os bombeiros.
Bombeiro: Tem alguém ai?
Moça: Sim.
Bombeiro: Quem está aí com você?
Moça: Bom, tem uma ex-vedete, um sobrevivente da Guerra Fria, o neto do Jack estripador, um ex-homem, uma ladra e o protótipo de delinqüente dela.
Bombeiro: Cá entre nós mocinha, tem certeza que quer realmente que eu tire todos daí?
Ela olhou para os lados e a Ladra ameaçou-a.
Moça: Ué, já que não tem outro jeito não é!
Bombeiro: Então eu vou jogar o kit de primeiros socorros.
Moça: Pode mandar.
Por um buraco no teto, caem terços e mais terços, crucifixos e imagens sacras. A velha já se punha a rezar.
Moça: Para que isso?
Bombeiro: Esses são os primeiros socorros, depois se isso não ajudar a gente salva vocês.
Moça: Espera aí. A gente está aqui a muito temo, tire a gente daqui, por favor!
Bombeiro: E carne? Ah deixa pra lá, já começou a chover mesmo! Vamos descer aí e puxaremos vocês. Ok?
Moça: Ok!
Comemoram todos.
Fecha-se a cortina.
Abrem-se segundos depois simulando que já haviam saídos todos de lá. O Conquistador sai fazendo gracejos para os bombeiros e o Velho sai gritando “São os russos! Eles voltaram! Fujam para as colinas!” e dá com a frigideira na cabeça do Conquistador que então volta a ser homem e começa a dar de cima das meninas que neste momento passam na frente do palco para simular os curiosos. A moça sai antes do ladrão.
Moça: Que vento estranho!
Ela fica pegando nela própria como se sentisse nua, apalpa a bunda, o seio. A Ladra então sai com o soutien e a calcinha da Moça na mão, e faz um sinal para que a platéia fique em silêncio escondendo-as na mala.

                                      Fim




Por: Pallomah F. Silva

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O conto o qual você não entenderá

A cidade estava vazia naquela tarde de sábado, todos os moradores haviam se deslocado para vigília que era tradicional na cidade há mais de séculos. Ela como sempre, não seguia os padrões dos outros nativos por questionar demais, não havia ido na vigília nem sobre a forte pressão dos pais. Sentada na janela de casa ela sentiu vontade de libertar-se, sentiu uma sensação comum de que algo estava errado em sua mente e várias horas de meditação seriam necessárias para por ordem no seus pensamentos. Saiu de casa, e pôs-se a caminhar na rua empoeirada, vazia, o vento soprava e carregava as folhas do outono para todos os cantos da cidade, a vida tão marrom daquele outono lhe agradava tanto, parecia combinar com sua personalidade um pouco fora do comum, gostava da solidão e do que ela lhe proporcionava. Andou em linha reta, tentando achar em sua mente o que lhe provocava desconforto. Nada! Andou mais um pouco e viu a pelo menos quinhentos metros dela uma silhueta muito mal definida, parecia um homem, não tinha certeza. Ela foi caminhando, não imaginava quem seria aquele que ousava assim como ela desafiar a crença daquela população fervorosa na fé. Ele parecia também a corresponder andando mais depressa em sua direção, o coração dela acelerou, suas pernas ficaram sem forças, mas continuou firme. Podia confirmar que se passava realmente de um homem de sobretudo marrom escuro. Ambos aceleraram os passos, o vento estava mais forte e folhas amareladas voavam para todos os cantos, seus cabelos de cor indefinida esvoaçavam as vezes tapando seu rosto. A distancia cada vez diminuindo e os corações de ambos cada vez mais acelerados como se o encontro fosse planejado, e aquele seria o ultimato a não sabe-se o que. Em fim estavam um a poucos metros do outro, pararam. Os olhos se encontraram, ambos cor de céu, na mente de ambos havia um sonho em comum, alguma  vez encontraram-se em um sonho, e desde então ele a procurara incessantemente . Os dois se aproximaram mais, poderiam sentir a respiração abafada de cada um deles, os olhos se entregavam. Sim, o tempo parou naquele instante.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Questionando um ponto de vista inexistente

Disseram-me um dia “Questione! Pois toda e qualquer descoberta nasce de uma pergunta que não se cala na mente de um ser em sua existência.”. Questionei um dia os sentimentos, soube então que não passam de reações dos hormônios que liberam substancias que nos promovem sensações diferentes dependendo dos seus estímulos; então deixei de sentir. Questionei um dia a crença, soube então que nós desde os primórdios da existência humana somos necessitados de acreditar em algo maior que nos protege e nos vigia; então deixei de crer. Questionei um dia os sonhos, soube então que não passam de uma manifestação criativa da psique  que transcende os meros cinco sentidos; então deixei de sonhar. Questionei um dia o meu ser, olhei-me no espelho e soube então que sou apenas um ser que já não sente, que já não crê, que já não sonha, então deixei de ser um “ser”. Questionei-me um dia minha existência, soube então que a existência depende do fato de eu ser eu como um “ser” que crê, que sente e que sonha, como não sou, então deixei de existir. Questionei um dia o questionamento, soube então que o questionamento é a pergunta que não se cala na mente de um ser na sua existência que o leva a toda e qualquer descoberta, como não existo por não ser um ser, pois nada sinto, nada creio e nada sonho; então deixei de questionar.


Colaboração: Marcos Nishimaru 

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Sozinha,Ela, a escuridão e a consciência...

Estava entre as ferragens do carro junto com sua mãe e seu pai, balançou-os para ver se eles acordavam mas eles nem se mexeram, estavam frios, com certeza mortos, ela então começou a chorar, não podia se soltar porque estava presa e perdia muito sangue em um corte nas costas. Sentiu dificuldade para respirar, de repente desmaiou. Acordou no hospital, máscara de gás no rosto, um homem de branco lhe forçando o peito, olharam pra ela e sorriram, mas logo viu seus pais ao lado da maca, sorrindo para ela e lhe estendendo a mão, ela então sorriu e deu a mão a eles, e o rosto do homem de branco foi mudando e agora estava gritando "Rápido, estamos perdendo ela, vamos!", de repente tudo ficou negro.
Acordou de manhã com sua mãe gritando:
-Ei mocinha, temos escola hoje se esqueceu? Chegou tão cansada da viagem que nem estava se lembrando da escola não é? Fiz panqueca de queijo como você gosta!- ela apalpou a si mesma assustada, tivera apenas um sonho ruim, ficou aliviada e sorriu de pensar em seu sonho que parecia tão real.
Vestiu-se rápido desceu, comeu e foi saindo, encontrou seu melhor amigo e vizinho de infância ao lado da sua casa, ele sorriu e eles foram a escola. Foi um dia normal como qualquer outro dia, a escola chata, com seus amigos desanimados e um mundo que a convidava a visitar. Voltou para a casa no fim da aula, quando notou na mesa sua avó, seus olhos lhe esbugalharam, ficou sem voz, sem ar.
-O que foi filha? Não vai falar com a sua avó?
-Sua benção vovó! Desculpem, mas vou subir para o meu quarto, estou sem fome.
Subiu as escadas depressa, sua avó havia morrido há dois anos, como poderia estar lá? Sentiu uma dor nas costas, tirou a blusa e viu a cicatriz de um corte, parecia ter anos, mas não se lembrava de como ou quando foi feito. A cabeça estava confusa. Alguém bateu na porta:
-Filha! Como você está?
-Estou bem mãe, pode deixar!
-Filha abre a porta para mim?
-Mãe, é que eu estou trocando de roupa.
-Filha abre a porta!- disse sua mãe com uma voz alterada.
-Abre a porta para vovó te ver, abre!
-Não, agora mesmo eu desço!
Houve um silêncio e logo depois um estampido, haviam quebrado a porta e sua família toda estava ali na porta, com um jeito ameaçador.
-Dúvidas querida? Vem aqui que mamãe te explicará tudo.
-Saia de perto de mim!
-Porque isso? Mamãe te ama!
-Você não é a minha mãe, e eu nem sei quem sou.
-Você é a menininha da vovó!
-Você está morta! Não me chame assim!- sua avó já mudara a figura do rosto.
-Entenda, esta é a ordem natural das coisas. Não nos trate assim nós lhe demos a vida, conviverás conosco por muito tempo!
-Prefiro morrer a viver com vocês, vocês estão mortos, vocês não existem, saiam daqui!-soltou um grito ensurdecedor.
-Mas você já está morta querida, morrer de novo para que? A cada vida um novo ciclo começa, uma nova dimensão a você é dada, então apenas viva a sua morte.- a velha sorriu ironicamente.
Ela os olhou diante do reflexo do espelho, não havia reflexo, eles não eram nada, absolutamente nada. Ela sem uma gota de lágrimas nos olhos, pareciam estar secos, ajoelhou-se no chão, e naquele instante estava ela  numa sala escura, sem paredes, apenas escuridão, era aquela sua vida, se é que posso chamar isso de vida.Gritou, gritou por horas seguidas a espantar a dor.
Estava morta, fato, havia morrido no acidente o qual pensara ser apenas um sonho. Sozinha, Ela, a escuridão e a consciência de que depois da morte, realmente não havia nada, absolutamente nada!

sábado, 4 de setembro de 2010

La Paloma...

Corria pelas ruas de São Paulo como uma louca, parecia estar em pânico, olhava para trás constantemente, algo a perseguia. Havia terminado de chover a poucos instantes, as ruas estavam escorregadias e ela mal parava em pé, sua roupa estava suja de barro, seu cabelo preto estava colado em seu corpo por causa do suor. Olhava a cena da minha janela, não entendia do que ela corria, ou de quem, resolvi ajuda-la, desci as escadas de casa, abri a porta e a puxei para dentro no exato momento que ela passava.
-El quiere de mí?- disse ela ostilmente.
-Acalme-se moça, só quero lhe ajudar.
-No, no, déjame ir! Por favor déjeme, nadie me puede ayudar!
-O que foi Marcos, que barulho é este aqui?- disse Yoshie mãe de Marcos que se assustara com o barulho.
-Mãe ela precisa de ajuda.- Yoshie ja foi tirando sua blusa de frio e envolvendo a moça que já estava se acalmando.
Sentada no sofá da sala com uma xícara de chá na mão, todos a olhavam.
-O que faz aqui menina?- perguntou Dona Yoshie.
-No sé, no sé dónde estoy ni cómo llegué aquí esta todo tan confuso!-disse a moça começando a chorar.
-Ei, ei, acalme-se, não chore! Sabe pelo menos o seu nome?- a moça olhou para a janela e viu uma pomba sobrevoar o local.
-Paloma. Tengo que ir, gracias, tengo que ir!- disse ela vendo uma arvore balançar.
-Espera o que houve?
-Usted no puede ayudarme , yo no quiero salir lastimado por mi culpa.
-Me diga! Por favor!-disse Marcos olhando no fundo daqueles olhos negros.
-Sólo me dicen que puedo manejar solo, hay cosas que no quiero vivir, ni los que me ayuda, entonces te enteraste antes de que me tengo que ir.
-Não há nada que possamos fazer?
-No, no puedo hacer otra cosa que tratar de sobrevivir, y olvídate de mí. Dale esto al Padre Juan Pablo en catedral San Francisco, dijo que su hija le dijo que él entenderá.
Ela tirou a blusa que Yoshie havia lhe dado e deu um beijo em sua testa, um beijo carinhoso de agradecimento por tudo, virou-se para Marcos, deu-lhe um beijo no rosto e sussurrou apenas "Hermano, tenga cuidado". Correu em direção a janela e pulou do terceiro andar, ambos correram para ver se ela havia morrido, mas nada havia no chão, ela havia sumido, e talvez para sempre.
Marcos pegou o bilhete que ela havia lhe entregado para que ele levasse até o Padre, segurou-o forte no peito como se aquilo fosse tão valioso quanto sua vida. Foi andando até a catedral, olhando para os lados com medo que alguem o seguisse. Bateu na porta da Catedral, um velho abriu a porta e ele lhe entregou o papel, ele leu e as lágrimas de alegria rolaram em seu rosto flácido, ele apenas disse "Está viva", Marcos sorriu, ficou feliz de te-lo ajudado. O Padre lhe cutucou e mostrou uma imagem na parede, era uma pintura de época, pelo menos de uns 200 anos atrás, quando viu o rosto, notou que era extremamente parecido com o de Paloma, o Padre sorriu e Marcos virou-se para sair quando notou em cima da torre da catedral que Paloma estava lá, sorrindo para ele, mas logo sumiu em um piscar de olhos e lá só uma pomba pegava vôo no local.